Gustavo Holderbaum
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30 de outubro de 2026

Mal de altitude no norte argentino: o que conta é onde você dorme, não onde passeia

Salinas Grandes e a Cuesta de Lipán passam dos 3.400 m. Como eu montei o roteiro para subir aos poucos e o que as diretrizes médicas dizem sobre prevenção.

Quando comecei a montar o roteiro da minha viagem sozinho ao noroeste argentino, no fim do ano, a primeira coisa que fiz foi abrir o mapa de relevo. Salta, Tilcara, Purmamarca, Salinas Grandes, Cafayate. Lindo no papel. Mas uma parte desse caminho passa dos 4.000 metros, e eu moro em Petrópolis, bem longe disso. Isso muda a forma de planejar.

O mal de altitude não escolhe quem é atleta ou sedentário. O capítulo do CDC sobre viagem em altitude é direto: treino e condicionamento físico não alteram o risco. O que altera é a velocidade com que você sobe e, principalmente, a altitude em que você dorme.

O que é e quando aparece

Quanto mais alto, menos oxigênio entra a cada respiração. O corpo se adapta, mas precisa de tempo. Quando você sobe mais rápido do que ele consegue acompanhar, aparece o mal agudo da montanha.

O sintoma principal é dor de cabeça, que vem junto com pelo menos um destes: falta de apetite, enjoo (às vezes vômito), tontura ou cansaço fora do normal. Parece ressaca, e muita gente confunde. Segundo o CDC, os sintomas costumam começar de 2 a 12 horas depois de chegar a uma altitude nova, muitas vezes na primeira noite.

Existem duas formas graves, raras mas que matam se ninguém agir:

  • Edema cerebral de altitude: a pessoa fica desequilibrada, anda como se estivesse bêbada, fica confusa ou sonolenta demais.
  • Edema pulmonar de altitude: falta de ar mesmo parado, tosse e queda forte no fôlego.

Qualquer um desses sinais significa descer, e não esperar melhorar.

Por que a altitude onde você dorme pesa mais

Esse foi o ponto que mais mudou o meu roteiro. O CDC classifica o risco pela altitude em que você passa a primeira noite, considerando quem sai de menos de 1.200 m:

  • Risco baixo: dormir abaixo de 2.750 m no primeiro dia.
  • Risco moderado: dormir entre 2.750 e 3.400 m no primeiro dia.
  • Risco alto: dormir acima de 3.400 m logo no primeiro dia, como acontece em quem voa direto para cidades muito altas.

Acima de 3.000 m, a recomendação é não subir mais do que 500 m por noite na altitude de sono e acrescentar uma noite extra a cada 1.000 m ganhos.

Agora coloque os números do norte argentino. Tilcara, na Quebrada de Humahuaca, fica a cerca de 2.465 m. A estrada que sai de Purmamarca para as Salinas Grandes sobe pela Cuesta de Lipán, que chega a 4.170 m, e o salar fica por volta de 3.400 m, segundo o site oficial de turismo do país. Cafayate, a terra do Torrontés, está a 1.683 m.

Ou seja: dá para ver tudo isso dormindo sempre abaixo dos 2.750 m. O passeio sobe, você volta e dorme mais baixo.

Como eu montei o roteiro

A lógica que eu segui foi esta:

  • Primeiras noites em Salta, que fica bem mais baixa. Chego, descanso, caminho pela cidade sem pressa.
  • Depois, subo para a Quebrada e durmo em Tilcara. Ainda na faixa de risco baixo, mas já é um degrau.
  • Só então faço o bate-volta às Salinas Grandes, passando pela Cuesta de Lipán. Fico pouco tempo lá em cima e volto para dormir na Quebrada.
  • Cafayate fica para o fim, quando a parte alta já passou. Vinho, bodegas e descanso.

O erro que eu vejo muito em roteiro pronto é sair de Salta de manhã cedo, ir direto às Salinas e voltar no mesmo dia. Dá para fazer, muita excursão faz, mas você vai de pouco mais de mil metros a mais de quatro mil em poucas horas, sem nenhuma adaptação. Se der para encaixar uma ou duas noites na Quebrada antes, a viagem fica muito mais tranquila.

O que fazer nos primeiros dias

Além de subir aos poucos, o CDC recomenda:

  • Nada de álcool nas primeiras 48 horas em altitude. Sim, isso dói para quem vai a uma região de vinho. Por isso Cafayate ficou no fim.
  • Exercício leve nas primeiras 48 horas. Nada de trilha puxada no dia em que você chega.
  • Não subir mais com sintomas. Dor de cabeça com enjoo é sinal para ficar onde está até passar.
  • Descer se piorar. O mal agudo da montanha costuma melhorar rápido com uma descida de 300 m ou mais.

Uma coisa curiosa: o CDC lembra que sintomas que começam depois de três dias na mesma altitude, sem ter subido mais, provavelmente não são mal de altitude. Vale procurar outra causa.

Sobre o famoso chá de coca, oferecido em hotel e restaurante por toda a região: é parte da cultura andina e eu acho uma experiência bonita. Mas ele não aparece entre as medidas de prevenção com boa evidência nas diretrizes que eu li. Não conte com ele no lugar de um roteiro bem feito.

E remédio?

Existe medicação para prevenir o mal de altitude, e a principal é a acetazolamida. A diretriz da Wilderness Medical Society, revisada em 2024, traz a acetazolamida como recomendação forte na prevenção, e o CDC lembra que ela não é para qualquer pessoa: quem tem alergia grave a medicamentos, por exemplo, precisa de cuidado.

Eu sou dentista, e esse não é um assunto para resolver por conta própria. Se o seu roteiro obriga a dormir alto logo de cara, ou se você já passou mal em altitude antes, marque uma consulta com seu médico antes de viajar e leve o roteiro com as altitudes de cada noite.

Resumindo

  • Condicionamento físico não protege. O que protege é subir devagar.
  • A altitude em que você dorme importa mais do que a que você visita.
  • No norte argentino dá para ver as Salinas Grandes e a Cuesta de Lipán dormindo abaixo de 2.750 m.
  • Nas primeiras 48 horas: sem álcool e sem esforço forte.
  • Dor de cabeça com enjoo: não suba mais. Desequilíbrio, confusão ou falta de ar parado: desça.

Aventura agora, mas com o roteiro certo.

Fontes